PROTOTIPAÇÃO E PROCESSOS ITERATIVOS EM GAME DESIGN

Por Gustavo Silveira


Postado em: segunda, 24 de abril de 2017 as 10:24 AM    571 views

O número de iterações às quais um projeto é submetido pode impactar diretamente na qualidade do jogo em desenvolvimento.



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O desenvolvimento de um jogo, assim como várias outras atividades criativas, é um processo iterativo, ou seja, um conjunto de atividades sequenciais que, quando concluídas, tem o seu resultado analisado e voltam a ser realizadas, permitindo a aplicação das melhorias cabíveis a cada etapa do processo (SUMMERVILLE, 2003). Desta forma, a cada iteração, ou ciclo de realização das etapas do processo, gera-se uma versão do jogo, ou de qualquer outro produto em desenvolvimento.

Abordando especificamente o desenvolvimento de jogos, essas etapas do processo podem ser resumidas em prototipação, teste e refinamento, conforme constatado por Brathwaite e Schreiber no livro Challenges for Game Designers (2009). Assim, pode-se tomar como boa prática o rápido desenvolvimento de um protótipo jogável, uma massiva bateria de testes e a elaboração de melhorias a serem implementadas, e esse processo deve repetir-se quantas vezes forem necessárias até que se atinja o resultado desejado.

 

Vejamos alguns componentes típicos de um processo iterativo aplicado ao desenvolvimento de jogos:

 

- Prototipação rápida

O design é focado na jogabilidade em detrimento do aspecto visual. Consideremos o protótipo de um jogo de tabuleiro com tema de corrida de carros: Pode-se usar marcadores de papel para representar os carros e estabelecer uma série de ações realizáveis pelos jogadores, dependendo de suas posições no tabuleiro. A partir deste núcleo sistêmico outras mecânicas podem ser desenvolvidas, refinando a jogabilidade e tornando a experiência proporcionada pelo jogo mais próxima da idealizada pelo game designer. Destacando que o ponto chave da prototipação é a rapidez.

Além de oferecerem uma boa ideia do funcionamento geral do jogo, protótipos também podem ser usados para responder questões específicas do design, poupando tempo precioso da equipe de desenvolvimento. Ao invés de perder semanas debatendo se o uso de determinado item compromete o equilíbrio do jogo, é muito mais rápido e eficiente criar um protótipo com o elemento em questão e avaliar seus impactos no desenrolar das partidas de teste.

 

- Playtest

Podem ser partidas completas ou parciais, focadas em mecânicas específicas, com o objetivo de identificar os pontos fortes do jogo assim como os aspectos que precisam ser melhor trabalhados, ou mesmo eliminados do projeto.

 

- Revisão

Mudanças são estabelecidas para resolver os pontos problemáticos identificados durante os testes, assim como para reforçar aspectos que se destacaram ou demonstraram grande potencial, podendo estas mudanças serem sutis ou uma completa reformulação no direcionamento do projeto.

 

- Repetição

Cria-se um novo protótipo com as atualizações propostas e inicia-se um nova iteração. O número de iterações às quais um projeto é submetido pode impactar diretamente na qualidade do jogo em desenvolvimento.

 

Dicas

Brathwaite e Schreiber sugerem ainda algumas dicas que podem ajudar durante o desenvolvimento de um jogo:

 

  • Evite consultar as regras durante os testes

Se nem a equipe de desenvolvimento consegue se lembrar das regras, como esperar que os jogadores o façam? O ideal então é que, durante a fase de desenvolvimento, as únicas anotações a serem consultadas nos testes sejam de recursos que serão disponibilizados para os jogadores na versão final do jogo, tais como tabelas com efeito de cartas, listas de monstros, habilidades de itens mágicos ou coisas do tipo. Obviamente esta dica aplica-se somente em jogos analógicos, visto que nos digitais a própria programação do jogo encarrega-se das regras.

 

  •  Um problema maquiado continua sendo um problema

Ao identificar um ponto problemático no jogo, evite a utilização de recursos para disfarçá-lo, ou o jogo pode acabar repleto de mecânicas paliativas que atrapalham a fluidez e a jogabilidade. Se algo no jogo não funciona adequadamente, pode ser melhor remover o problema de vez.

Uma outra forma de resolver elementos disfuncionais talvez seja passar um tempo sem pensar no projeto. O distanciamento pode ajudar a criar uma nova perspectiva sobre o jogo e novas soluções podem surgir.

 

Conclusão

O desenvolvimento de um jogo é algo que exige dedicação e perseverança. Nem mesmo os mais experientes e talentosos game designers alcançam seus objetivos na primeira tentativa e todos os grandes sucessos resultam de uma série de erros e ajustes. Qualquer jogo, ou mesmo mecânica presente em um jogo, exige várias iterações antes de poder ser considerado pronto.

 

E você, aplica métodos iterativos em seus projetos? Deixe sua colaboração nos comentários abaixo.

Até a próxima!

 

 

Referências:

Brathwaite, B.; Schreiber, I. Challenges for game designers. Boston, MA: Course Technology. 2009.

Summerville, I. Engenharia de software. 6º. ed. São Paulo: Pearson, 2003. 580 p.



Autor:

Gustavo Silveira

Entusiasta da educação digital, futurólogo amador e fascinado pela evolução das tecnologias e seus efeitos sobre as relações sociais. Apaixonado por quadrinhos, livros, filmes e videogames, enxerga os jogos como poderosas ferramentas na formação cultural e ensina conceitos fundamentais de programação e Ciência da Computação através do desenvolvimento de games, em cursos presenciais e em seu canal no YouTube."